Bem Aqui
Era uma noite de segunda feira. Estava completamente exausta, pelas horas e horas que caminhei sozinha sem rumo, pelas ruas pacatas de uma cidade qualquer, desértica e sem vida a qual o primeiro ônibus que peguei na cidade de São Paulo, havia me deixado. Da cidade eu nada sabia, e para mim nem havia importância, mais notei que entre nós havia uma mera semelhança, o silencio gotejante da chuva , ao cair aquela madrugada, deixava-nos pura melancolia, a qual, nos reconhecemos , sem ao mesmo dizeres nada.
Eu acara de fugir do meu mundo, assim como as pessoas haviam fugido das ruas, como se previssem a alma desgraça que por lá passaria. Fugi tentando correr de mim, e da alma gritante dentro do meu peito, implorando a saudade, a dor, e a angustia, que me deixassem em paz. Mas no momento, eu era uma vitima fácil, a mais fácil. Afinal, acabara de me deparar sozinha, após o enterro de minha avó, que ocorrera aquela manha. Era a única pessoa que me restava, e agora... para mim, e de mim, só sobrara eu mesma.
Depois de muito chorar, agora sem lagrimas aos olhos, mais sim, as prendendo no coração, sentada na causada observando um barquinho que a enxurrada empurrava para o esgoto, consegui ter a visão um pouco mais clara, clara o suficiente para avistar um uma grande mansão de construção antiga ao final da rua sem saída, que não só por beleza, mais sim por algo a mais que não sei explicar, me chamou a atenção, como se me chamasse em silencio. Sem mais pensar, corri contra a chuva, até chegar a sua frente, com um pouco de cautela, bati a porta com as mãos molhadas.
Um simpático senhorzinho, a abriu assustado, provavelmente se perguntando o que uma garota como eu, fazia ali, parada abaixo da chuva, em uma madrugada tão fria, apesar de nada se comparar ao frio interno que meu ser se congelava.
Sem mais sem menos, colocou-me para dentro, sem nem saber meu nome. Pediu para que eu aguardasse um instante, e assim obedeci, enquanto ele se enfiava rapidamente casa a dentro. Esses poucos instantes foram mais do que suficientes, para que eu notasse a semelhança que ele tinha com meu avô, e a diferença da casa milionária a qual eu entrara, com a ultima que morei até a noite passada, fazendo de tudo para que eu e minha avó sobrevivêssemos dia após dia.
Em menos de um minuto o senhorzinho voltou com uma senhorinha, a qual estava com uma linda camisola de seda e bobis na cabeça, me entregando uma xícara de porcelana com chá quente, e ao mesmo tempo envolvendo-me em uma manta, a qual parecia ter sido feita a mão. Agora mais calmos, perguntaram meu nome, se apresentando também, sendo o senhorzinho chamado Pedro, e a senhorinha Mirela. Contei-lhes minha historia, voltando as lagrimas aos olhos, os quais com o maior carinho, como se me conhecessem a anos, enxugaram minhas lagrimas, e ofereceram-me um quarto, para que lá eu ficasse por quanto tempo precisasse. Como não tinha aonde ir, por segurança aceitei.
O quarto era lindo, assim como o restante da casa, pintado de azul anil, com estrelas azul marinho completando o teto, era como olhar uma noite estrelada deitada sobre uma nuvem, que era como o colchão me pareceu, por ser tão confortável. Havia também quadros coloridos por toda a parte, e por mais que parecem ter sido pintados por uma criança, traziam uma paz a qual não sentia a tempos, assim como o porta retrato ao lado da cama com uma linda foto de um garotinho que parecia ter uns sete anos, sorrindo como nunca vi ninguém sorrir antes, brincando em um chafariz, onde bebiam água muitos passarinhos, sem nem se incomodar com a presença do garoto.
A noite foi longa, mais o cansaço foi maior, e acabou fechando meus olhos, sem eu nem me dar por eles, fazendo-me cair em sono profundo.
Na manha seguinte, não encontrei nada além de uma mesa farta de café da manha, iluminada pela luz que o sol refletia sobre as portas de vidro da varanda. Não vi nem Pedro nem Mirela, a sem saber como agir, abri as portas da varanda, de onde avistei a imagem surreal do jardim da foto em pleno outono, formando um tapete de folhas laranjas se colocavam sobre o chão.
Em meio de tanto encantamento e grandeza, só depois fui notar a presença dos dois, sentados no mesmo chafariz em que o garotinho se encontrava na foto. Desci as escadas rapidamente, ainda não acreditando como algo tão bonito, poderia estar na mesma cidade fria e escura na qual cheguei ontem a noite. Parecia mais outro mundo, fazendo assim, nem eu parecer eu mesma, ao pisar naquele chão, era como se a camisola emprestada por Mirela, se tornasse um lindo vestido de gala, minha tiara envelhecida, mais parecendo uma coroa, e até eu mesma, parecendo alguém até que feliz.
Ao chegar até ales, depois de receber um grande Bom dia, e diversas perguntas de como havia passado aquela noite, sem cessar perguntei, sobre o quarto, e especialmente sobre a foto que lá encontrei. Mirela com lagrimas nos olhos, respondeu que era seu filho que falecera naquele jardim a 20 anos atrás, enforcado com uma mangueira que acidentalmente acabou se enrolando nele, de maneira sufocante, quando ia encher novamente o chafariz, para aguardar a chegada do outono.
Minha garganta fez um nó, o qual não me deixava dizer nada, chorando desesperadamente e indignada, com muito esforço consegui perguntar como suportavam então, morar naquela casa, permanecer naquele jardim, tendo aquele lugar lhes deixado tal tragédia, porque não fugiram? Porque? Porque não fugiram como eu? Não iria mudar muito... Mais pelo menos pouparia sofrimento desnecessário!
E então, Pedro pacientemente enxugando as lagrimas, gentilmente me respondeu
:- Nem nós sabemos. È terrível, a fase mais difícil de nossas vidas. Mais, devemos, queremos, e aprendemos a nos alegrar! Ele se foi... Mais foi o melhor filho que poderíamos querer. Mesmo não estando mais aqui, ele foi nosso mundo, e esse foi o mundo dele, o qual ele adorava! Os quadros, as risadas, a alegria, e as lembranças que eles nos deixou, são maravilhosas! E é assim que vamos lembrar dele.Mesmo uma alma que já se foi... È a saudade, é a dor, é o amor, que a faz eterna. Mesmo em um jardim, em uma casa solitária numa pacata cidade do interior de São Paulo ! E é claro, bem aqui, dentro de nós! TUDO SE FAZ IMORTAL.
Alessandra Froes

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